Jovens do século XXI, sempre correndo, sempre ocupados. Uma vida no campus cheia do aroma dos ipês em flor, um passeio com um amorzinho ao lado nos momentos de folga e, ao se formar, todos mergulhariam na disputa por um emprego. Pelo menos, era o que diziam. Você não sabia. Não tinha como saber. Não teve tempo para isso. Tendo largado a escola no ensino fundamental para assumir o sustento da casa no lugar de seu pai, que se suicidou, você jamais poderia saber. Você não pôde ser um vestibulando entrando no local de prova com o incentivo dos pais. Não sentiu a alegria de ser aprovado na universidade, nem o desespero da reprovação. O fardo da vida que você carregava era tão pesado que não havia espaço nem para um pingo dessas trivialidades. Você esfregou. Esfregou até seus dedos tremerem e não restar mais força em suas mãos, inchadas pela água. No sexto ano, em um verão tão úmido que chegava a sufocar, você limpou os rastros de seu pai. Limpou a última escolha dele, grudada e pegajosa no chão amarelado. Você não conseguia entender. Por mais que esfregasse, a marca da pobreza sob suas lágrimas, que caíam naquele piso, não se apagava. As pernas de seu pai, balançando no vazio, também não saíam da sua cabeça. Uma garrafa de cachaça pela metade, um maço de cartelas de remédio preso com um elástico, e na última nota de dez reais que ele deixou, talvez como um bilhete de despedida, uma caligrafia torta e apressada. Subindo as vielas tortuosas que serpenteiam por entre os muros de casas velhas, há um portão de ferro que range. Seu lar. O último lugar de seu pai. Um lugar com seis meses de aluguel atrasado. Um porão onde o mofo brotava com a chuva e onde, toda noite, se ouvia a algazarra dos bêbados da vizinhança. Era ali que você desabava depois de um dia inteiro de bicos. Ainda assim, o motivo pelo qual você engolia o arroz frio, se matava de trabalhar, passava o verão sem ligar nem o ventilador e tomava banho de água fria no inverno, batendo os dentes, só podia ser um instinto de sobrevivência teimoso e visceral. Tudo isso sobre o melancólico chão amarelado que grudava em seus pés descalços.